Obrigado por lerem e boa leitura.
AZUL ESVERDEADO
Me falaram que esse cara era forte, tão forte quanto o atual campeão
mundial. Isso realmente me empolgou, treinei como se não houvesse amanhã,
cheguei até a pensar em desistir, pensei também que era impossível alcançar o
nível desse cara, mas eu estava completamente enganado.
Noites de lutas pelo título costumam ser bem agitadas, todos os lugares
da arena foram vendidos, a arena estava cheia. Homens, mulheres, crianças,
idosos, repórteres, todo tipo de pessoa estava lá, querendo presenciar o
nascimento de um novo campeão mundial. Não só pessoalmente, praticamente o
mundo todo estava colado na frente da televisão, só contando os segundos para
que a luta começasse.
Eu estava no meu vestiário, meu treinador e seus assistentes estavam
presentes, todos ansiosos. Meus companheiros de ginásio também estavam
presentes. A conversa era no sussurro. Ninguém queria tirar minha concentração,
meus nervos estavam a flor da pele, meus sentidos estavam prontos para a luta.
- Desafiante, já pode se preparar para entrar no ringue. – Um juiz havia
aparecido na porta do vestiário e avisado.
- Você está pronto, garoto? – Perguntou meu treinador com uma voz rouca
por causa da idade.
- Sim. – Respondi, com um olhar determinado.
Ele apenas sorriu e me guiou pelo corredor até chegarmos no ringue. Ao
sair pelo corredor, entrarmos na arena um turbilhão de gritos histéricos,
torcida, vaia, tudo ao mesmo tempo começou a soar, o mundo todo estava animado.
Ninguém conseguia segurar sua ansiedade pela luta que estava prestes a
acontecer.
Fui em direção ao ringue que tinha um formato quadricular de
aproximadamente 5x5 e ficava a um metro de altura sem qualquer grade que
impedisse de o lutador cair. Subi as escadas e mais gritos ecoaram pela arena,
fazendo o chão tremer. Os torcedores começaram a bater os pés no chão, causando
um terremoto.
“E o desafiante chega! A torcida
vai ao delírio! Esse desafiante é o mais querido de todos os tempos.” ,
comentou um dos narradores.
“É verdade, e é um dos
mais fortes já vistos. Nosso campeão terá dificuldades contra ele.” , comentou o segundo narrador.
Entrei no ringue enquanto o juiz me apresentava e mais gritaria, então
um momento de silencio profundo, a tensão ficou palpável, o juiz fez uma pausa,
uma pausa longa demais. Como uma tempestade chegando sem aviso, a plateia volta
a gritar, torcida para tudo que era lado, o campeão acaba de chegar.
Ele tinha um corpo absurdamente grande e musculoso, cheguei a duvidar se
ele iria sentir meus punhos. Mas eu não fiquei desesperado, havia treinado
justamente para esse dia, eu sairei desse ringue como o mais novo campeão
mundial.
- Lutadores, no centro. – Pediu o juiz após apresentar o campeão.
Nos aproximamos, o juiz começou a falar das regras básicas, mas eu não o
dei ouvidos, estava concentrado demais em não perder minha postura contra o
campeão. Ele realmente tinha uma presença forte pessoalmente, mais forte do que
quando nos encontramos na pesagem do dia anterior.
Ele me encarava com olhos assustadores, mas eu o encarava de volta. Ele
estendeu a mão e eu a apertei com firmeza, fazendo-o abrir um sorriso. Pelo
visto, essa luta será bem intensa.
Eu estava usando o calção azul e o campeão usava um vermelho. Ficamos no
centro, encarando um ao outro, o tempo parecia não passar, a ansiedade crescia
cada vez mais, o barulho ao redor começou a diminuir até que ficou um silencio
absoluto. Então a voz do juiz quebra esse silencio.
- Comecem! – Gritou o juiz, que começou a se afastar dos participantes
até uma distância segura.
Investi logo de começo pois quem tem a iniciativa, tem a vantagem.
Tentei uma sequência de golpes, um soco direto com a direita, seguido de um
soco giratório por fora com a esquerda, um chute, também por fora, com a
esquerda, mais um soco direto com a esquerda.
O campeão desviou meu primeiro soco, se abaixou contra meu soco por
fora, defendeu e empurrou de volta meu chute, jogou meu soco direto com a
esquerda para o lado e investiu com o ombro em meu estomago, perdi o folego com
apenas um golpe e cai de joelhos com uma das mãos no estomago.
A plateia foi ao delírio com o rápido acontecimento, os narradores mal
conseguiram narrar o que estava acontecendo, a televisão passou várias reprises
de vários ângulos.
Olhei para o campeão, ele me olhava com um olhar de arrependimento,
estava se arrependendo por ter tido esperanças? Quer dizer que eu era fraco?
Maldito, você me paga!
Me levantei antes mesmo do juiz começar a contar, ele me pergunta se eu
podia continuar, respondi que sim, levantei minha guarda e avancei novamente,
dessa vez mais cauteloso.
Tentei alguns combos e sequencias, soco direto com a direita, seguido de
dois socos com a esquerda, mais um com a direita e logo um chute rasteiro com a
perna direita.
Ele se esquivou dos socos como se não fosse nada, mas como estava cheio
de si, não prestou atenção ao meu pé e levou a rasteira, caindo de lado no
ringue. Não perdi a chance e fui para sinal com intenção de montar nele, mas
ele foi mais rápido e jogou os dois pés com força em meu peito, me jogando para
trás e me fazendo cair de bunda.
Ele se levantou tão rápido quanto caiu e veio para cima de mim com um
pisão de direita, me joguei para a esquerda e chutei sua perna, que apenas
dobrou levemente e então recebi um chute bem no meio do estomago.
O chute me fez ir para o canto do ringue, quase caindo. Consegui parar
antes da borda e me levantei rapidamente, quando olhei para a frente, lá estava
ele, cara a cara comigo, pronto para uma disputa de perto.
Sorri, ele também sorriu, então começamos a trocar socos e chutes, todos
os meus golpes eram defendidos e quase todos os golpes dele eu defendia. O
ritmo estava muito alto, eu estava começando a ficar sem folego, por culpa dos
dois golpes no estomago.
Quase perdendo o folego, me agarrei ao meu adversário para conseguir um
tempo de recuperar minha respiração. Tentei empurra-lo para o centro do ringue
pois estávamos muito na borda, consegui com muito esforço. Enquanto eu o
mantinha agarrado, ele me dava vários golpes nas costelas e se agitava o mais
forte que podia para poder escapar, mas eu consegui mantê-lo firme.
Já no centro do ringue, eu o empurro para me afastar, mas logo avanço
chutando com a direita por fora, depois por dentro, por fora novamente, na
perna, na altura da cabeça, no peito. Ele se manteve na guarda, defendendo meus
chutes. Os mais eficazes foram em sua perna, cada chute que eu dava, elas
balançavam um pouco.
Foi então que percebi que as pernas dele não eram tão treinadas como as
minhas, eu tinha uma chance de ganhar. Comecei a tentar abrir brechas para
golpear suas pernas. Cada soco que eu dava, vinha com uma finta para o outro
lado, fazendo-o se esquecer momentaneamente das pernas, mas ele era rápido e
logo conseguia defender meus chutes.
Ele avançou com uma sequência e algumas fintas, finta no chute, soco na
cara, finta no chute, chute no corpo, finta e mais finta, eu estava apanhando
muito.
Após alguns minutos apanhando, finalmente eu caio no chão, de costas e
olhando para a direita, para os pés do campeão. O público delira, o juiz começa
a contagem, era o meu fim.
Foi então que eu a vi, uma garota me olhava fixamente da plateia. Ela
tinha olhos pretos, uma pele de cor caramelada e seus cabelos, azul esverdeados
mais puxado para o azul, eram lisos e rebeldes, passava a impressão de
liberdade. Ela vestia um quimono preto com faixa preta e me encarava fixamente,
ela não havia dito nada, mas eu a compreendi, não era o momento para desistir, eu
tinha que persistir, eu tinha que ganhar.
Comecei a me levantar lentamente, o público ficou surpreso com minha
determinação, meu adversário não acreditava no que via, meu treinador e meus
amigos ficaram surpresos e começaram a torcer mais alto por mim.
Me levantei e fitei o campeão, avancei lentamente, passo a passo. Ele
começou a recuar, incrédulo. Meus olhos ainda não haviam morrido, eu ainda
tinha força de vontade para continuar e isso assustava o campeão. Foram mais de
quarenta minutos de luta, ele ganhando todas as disputas de golpes e mesmo
assim eu me levantei.
Uma última investida, ele pensou e foi o que fez, correu em minha
direção com a guarda levantada. Ao chegar na distância de seu alcance, ele
começou a desferir golpes, socos e chutes, mas eu desviava de todos como uma
folha balançando com a brisa.
Eu mesmo não sabia direito o que estava fazendo, apenas sabia que
precisava desviar mais um pouco até surgir minha oportunidade. Então ela surge,
um balanço muito grande do campeão fez com que ele perdesse o equilíbrio,
aproveitei essa oportunidade para golpeá-lo de baixo para cima, no queixo,
quando ele se virou para mim.
Seu rosto foi para cima, então golpeei seu corpo logo abaixo da costela
esquerda, ele abaixou o rosto com uma cara de muita dor e colocou
instintivamente as duas mãos sobre o local golpeado, deixando o rosto
desprotegido, foi então que dei meus golpes finais, como um pendulo, balancei
da direita para a esquerda e acertei seu rosto diversas vezes e para finalizar,
após dar um soco com a esquerda indo para a direita, continuei o movimento do
corpo, levantando minha perna direita, fazendo um giro completo e acertando seu
rosto com força, fazendo-o bater no chão.
O juiz se aproxima rapidamente, me separando do campeão, e depois se
abaixa para verificar se ele ainda estava consciente. O juiz levantou as duas
mãos e balançou elas fazendo um x e pedindo uma maca. O gongo toca, sou
levantado, o público vai ao delírio, os narradores mal conseguem descrever a
emoção que estão sentindo. Hoje, nasceu um novo campeão.
Olhei para onde estava a garota de cabelos azul esverdeados, mas ela não
estava mais lá. Só pude agradece-la mentalmente.
Após muita comemoração, fui para o vestiário, tomar uma ducha e me
trocar. Quando sai do banho, vi no meu reflexo do espelho, no meu antebraço,
havia uma tatuagem no formato de um urso tribal. Em cima de minhas roupas,
estavam duas pulseiras azul esverdeado, sem pensar as coloquei e ambas as
pulseiras e a tatuagem brilharam em tom azul esverdeado.
Continua.
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